Se você se deparar com 11 procedimentos e 79,5 dias para abrir uma empresa, pode estar certo: você já começa a pagar o “Custo Brasil” logo na largada. Este é o resultado do relatório Doing Business, apontando o Brasil na 175ª posição dentro de um universo pesquisado de 190 países sobre competitividade. Esta sensação é corroborada por pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostrando o país na 17ª colocação em um ranking de 18 economias de perfil semelhante e acende a luz amarelo-sangue – com perdão do neologismo. Chile, México, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e outros países dão um verdadeiro olé nos “canarinhos”. Neste trabalho da CNI, registre-se, a Coreia do Sul é a campeã em facilidades e, portanto, em competitividade. Na lanterninha (por ora) está a Argentina.

Não fosse isso o bastante, ao abrir as páginas do Diario Las Américas, na internet, me deparo com o seguinte texto, exaltando os Estados Unidos e alguns de seus estados. Reproduzo: “Los proveedores de formación de empresas, ZenBusiness, realizaron el estudio para determinar qué estados del país tienen la mayor demanda de pequeñas empresas según las consultas de búsqueda en internet. Pennsylvania ocupó el primer lugar como el estado con más interés en temas relacionados con empresas independientes, con una puntuación de 401 de los posibles 600 en los términos de búsqueda `pequeñas empresas cerca de mí` y `Etsy`.

La no existencia de un impuesto estatal sobre la renta, el amplio respaldo del gobierno estatal y de las autoridades condales y locales, la atractiva tasa de impuestos, el clima y la multipluralidad de culturas han convertido a Florida en un sitio ideal para todo tipo de negocios y vida moderna, adecuada también a su hermoso entorno natural de manglares, lagos, ríos y bosques tropicales”.

Quem já precisou dar partida nos primeiros carros a álcool (década de 1980), no frio, e na década seguinte se maravilhou com a internet discada, sabe que o país já foi pior. Mas não é porque já foi é que precise continuar sendo. O diagnóstico do Doing Business Subnacional Brasil 2021, estudo realizado pelo Banco Mundial a pedido do governo brasileiro, com apoio do Sebrae, Confederação Nacional do Comércio (CNC) e Federação Brasileira de Bancos (Febraban), mostra que empresas brasileiras consomem, em média, 1.493 horas por ano (isto é, considerando um turno de 8 horas de trabalho, dá MAIS de SEIS MESES) para cumprir com suas obrigações tributárias. A isto junte-se Alvará de Construção (média de 22 procedimentos), Habite-se, Registro de Propriedade etc etc etc…

Tudo o que se disser daqui por diante ficará chato e repetitivo. O diagnóstico está dado. O País reúne baixa competitividade simultânea ao “Custo Brasil”, a nossa amarga jabuticaba. Isso precisa mudar. A sociedade civil organizada tem o direito – e o dever – de cobrar dos governos (nas três esferas) melhores práticas de governança, como se cobram das organizações empresariais. Afinal, somos atores de um mesmo ecossistema. Navegamos em barcos diferentes, mas estamos no mesmo mar.

LEMBRANÇA

Só pra gente não esquecer nossos direitos e banalizar a morte. No Artigo 5º, Caput, da Constituição Federal, está escrito: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes;”.

IPO

O BR Partners, banco de investimento independente, fará seu IPO nesta segunda-feira, 21, na B3. Logo após a cerimônia de toque da campainha, será a 24ª empresa listada no Nível 2 da Bolsa (que lhe assegura o direito de manter ações PN).

AQUISIÇÃO

Em fevereiro de 17 a mineira Hermes Pardini, empresa de medicina diagnóstica, abriu o capital na B3. De lá para cá já ocorreram nada menos que 12 aquisições no setor.

A última aconteceu na sexta-feira, 18, com o desembolso de R$ 127 MM. A bola da vez foi o laboratório paraense, de Patologia Clínica, Dr. Paulo Cordeiro de Azevedo.

ENERGIA

A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) está prestes a levar um choque de realidade. No próximo dia 25 ocorrerá leilão de privatização e a Equatorial Energia é forte candidata a arrematar a CEA.

Não é demais lembrar que desde o ano passado o estado vem sofrendo vários apagões.

TRANSVERSAL

A Duratex aposta firme nos pilares ambiental, social e de governança, por isso cria a Gerência de ESG na companhia. Objetivo é que a nova área atue de forma transversal dentro do negócio.  

Para pilotar o ESG (já noticiamos aqui) foi designado Guilherme Setubal, profissional dos mais engajados do mercado de capitais brasileiro. “Um dos nossos maiores desafios enquanto área é traduzir esses conceitos para nossos stakeholders, reforçando que ESG é uma agenda de investimento para a companhia”, resume ele.

MULHERES

Ainda na Duratex uma outra novidade: é que a companhia desenvolveu curso, em parceria com o Senai de Lençóis Paulista (SP), para capacitação profissional de mulheres. O curso é gratuito e tem foco na atividade de auxiliar de produção. A primeira turma, de 20 mulheres, ocorreu no mês de maio, no formato EAD.

COMITÊ

Eduardo Werneck, que desde maio último é o presidente do Conselho da Apimec Brasil, agora articula a implantação do Comitê ESG da associação, que reúne profissionais de investimentos e analistas do mercado de capitais.

CRÉDITO

O Itaú anunciou, na última semana, crédito sustentável, no valor de R$ 400 bilhões. Ideia é priorizar emissões no mercado de capitais (dívidas atreladas a metas ESG) e empréstimos focados nos setores de energia renovável, agronegócio, saúde, educação, papel e infraestrutura.  

AQUISIÇÃO

A Ambipar informa a aquisição da Ecológica Nordeste, empresa voltada à gestão ambiental, criada em 2013, com unidade de trituração e blindagem de resíduos de coprocessamento, localizada em Simões Filho, interior da Bahia.

BIODEGRADÁVEIS

iFood e Suzano acertaram parceria com vistas a reduzir os itens plásticos nas entregas de alimentos. Proposta é incentivar o uso de materiais amigáveis ao meio ambiente, como embalagens biodegradáveis.  

De acordo com o World Wildlife Fund (WWF), o Brasil é o quarto produtor de rejeitos plásticos no mundo, com mais de 10 milhões de toneladas/ano. Dessa montanha produzida, pouco mais de 1% é reciclado.

Desde o início do ano funciona o iFood Regenera, programa da empresa visando reduzir totalmente a poluição plástica em suas operações de delivery, até 2025, bem como neutralizar emissões de carbono também até 2025.

CAMINHÕES

A Scania já produziu 150 caminhões movidos a gás e que estão rodando junto a transportadoras do país. Os modelos são fabricados desde outubro de 2019.

Somente a TransMaroni adquiriu 50 desses caminhões a gás natural.

CAMINHÕES 2

Em parceria com a Transportadora Bolt, a Suzano acertou o transporte de papéis por meio de dois caminhões elétricos. Com autonomia de 200 km, os veículos reduzirão em mais de 90% as emissões de carbono.

Nessa etapa piloto, os veículos circularão na Grande São Paulo e a direção da companhia já prevê aumento da frota elétrica.

NORMAS CONTÁBEIS

O XVIII Seminário Internacional CPC sobre Normas Contábeis Internacionais vai acontecer nos dias 01 e 02 de setembro próximo, tendo o presidente do Conselho Federal de Contabilidade, Zulmir Breda, como convidado para a abertura.

Evento, que conta com apoio do Portal Acionista, já tem programação definida e pode ser acessado pelo link  http://eventos.facpc.org.br/inscricao/XVIIISeminarioCPC?_ga=2.3832240.1675687935.1620220745-1390612567.1620220745

EDUCAÇÃO

O Ministério da Educação e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fecharam parceria para oferecer cursos de Educação Financeira a 500 mil professores. Proposta é preparar os educadores para que incentivem nos alunos habilidades para saúde financeira e empreendedorismo.

O MEC se impôs o desafio de atingir 25% dos professores de educação básica, nas redes pública e privada, com o que alcançaria 2,3 milhões de profissionais em sala de aula e algo superior a 20 milhões de alunos. A experiência deverá iniciar no próximo mês de julho.

ARTIGO

Quando a sustentabilidade passa a fazer parte do nosso dia-a-dia, deixamos de percebê-la

(*) Denise Pereira Curi

Ao assistir televisão hoje, me dei conta da quantidade de comerciais exibidos que abordam temas relacionados à sustentabilidade. Em torno de 90% de toda a propaganda exibida em Portugal faz alguma referência às práticas de sustentabilidade.

As propagandas de carro, falam sobre os carros elétricos. Os comerciais das empresas de energia elétrica falam da transição para uma energia mais verde. As peças publicitárias sobre eletrodomésticos abordam a economia de energia do produto, o silêncio e a redução dos impactos ambientais. Até mesmo as propagandas de supermercados tratam da questão da sustentabilidade, dos alimentos orgânicos e da comercialização de produtos nacionais.

Os cidadãos fazem reciclagem do lixo doméstico e levam a sua sacola reutilizável ao mercado. Os jovens estão deixando de comer proteína animal e dão preferência para o leite de origem vegetal para proteger o meio ambiente. Entre ir de carro, ou outro meio de transporte, a opção é o outro meio de transporte, que pode ser inclusive com os próprios pés ou bicicleta. Há uma preocupação com o desperdício e com as ações de solidariedade, principalmente, em relação aos mais idosos.  Estas atitudes estão tão arraigadas no comportamento das pessoas que deixamos de percebê-las. 

Diferente não é reciclar, diferente é não reciclar!

E apesar de tudo isso, a União Europeia (UE) acena que as metas deveriam ser ainda mais arrojadas.

Em 2018, a UE estabeleceu metas ambiciosas em matéria de reciclagem, resíduos de embalagens e aterros. O objetivo dessas regras era promover a mudança para um modelo de economia circular. Em março de 2020, a Comissão Europeia apresentou um novo plano de ação para a economia circular que visava reduzir os resíduos através de uma melhor gestão dos recursos. Finalmente, em fevereiro de 2021, o parlamento europeu aprovou um novo plano de ação para a economia circular. Desta vez, o objetivo é alcançar uma economia neutra em carbono, livre de substâncias tóxicas e totalmente circular até 2050.  Foram implantadas metas de reciclagem mais rigorosas e metas obrigatórias para utilização de consumo de materiais até 2030.

Na receita sugerida pela EU para o atingimento do carbono zero, em 2050 estão:

 Como esse posicionamento europeu pode afetar o Brasil

Outro dia alguém me respondeu: “Mas isso é um modelo europeu!”

É verdade, mas é importante estarmos atentos às tendências. O investidor está atento ao que acontece no mundo.  E lembrando que tendência não é moda, essas atitudes podem sim afetar empresas brasileiras.  Vejamos porque:

  1. muitas empresas brasileiras são exportadoras, ou fazem parte de uma cadeia produtiva orientada para o mercado externo;
  2. a cada dia que passa, a UE fecha o cerco contra as empresas que não se preocupam com a sustentabilidade; e em contrapartida oferece mais benefícios para aquelas que adotam as boas práticas, aumentando a competitividade de suas empresas;
  3. o sistema financeiro tem se manifestado, em relação às suas políticas de financiamento, visando a Agenda 2030.  Dentre as políticas mencionadas pelo setor estão as restrições de crédito para empresas com baixo engajamento com as causas socio-ambientais e, principalmente, com aquelas que deixam uma pegada ambiental significativa. Sendo assim, as melhores taxas serão aplicadas aos financiamentos para as empresas que apresentarem um melhor padrão ESG. Vale lembrar que estes bancos possuem atuação internacional;
  4. há tempo as seguradoras estão preocupadas com as consequências das mudanças climáticas em seus negócios;
  5. Biden exterioriza a todo momento sua preocupação com as questões relacionadas à sustentabilidade. Canadá e China caminham na mesma direção;
  6. a “economia compartilhada” tem crescido em todo o mundo, provocando um movimento para a “servitização”. Algumas montadoras já estão testando esse modelo; e
  7. investimento em fontes de energia alternativas, como o hidrogênio verde, aparecem como uma das alternativas mais interessantes na geração de energia.

Aqui estão apenas sete razões para que as empresas brasileiras se voltem para o tema sustentabilidade e comece a adequar suas atividades. Caso contrário, perderão competitividade.  Como eu sempre digo:

A sustentabilidade não é uma tendência: é business!

(*) Denise Pereira Curi é palestrante, mentora e consultora de empresas na área de sustentabilidade, estratégia empresarial e marketing estratégico.  É pesquisadora na Universidade de Aveiro e doutora em Engenharia de Produção pela Poli/USP. Possui vasta experiência como executiva em empresas como HTMG, Grupo Rhodia (atualmente Solvay); Banco Real (atualmente, Santander); e como acadêmica na FIA e universidade Mackenzie. É autora de vários artigos e livros no Brasil e no exterior. Atualmente, vive em Portugal, mas também trabalha remotamente com o Brasil.

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